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FARÁ BEM MEDITAR?

A MENTE E A IMPORTÂNCIA DA MEDITAÇÃO

Por vezes é fácil confundirmo-nos com a mente. Das primeiras coisas que aprendi sobre a mente foi precisamente esta distinção, entre o que eu sou e o que é a minha mente. Porque eu não sou a mente. E isso fez-me tanto sentido!

Eu tenho uma mente, que faz mil e uma coisas: planeia, projeta, agenda, toma decisões, compara situações, etc. Tenho também um corpo que se movimenta, que anda, que dança, que corre… mas tal como eu não sou o meu corpo, eu também não sou a minha mente. Eu posso ter mais corpo, ou mais peso, mas isso não quer dizer que eu sou mais eu. Também não sou menos eu porque perdi corpo, ou porque eu emagreci.

Isto pode ser relevante porque por vezes podemos identificar-nos de tal forma com a mente, com aquilo que a mente está a ser naquele preciso momento, que acreditamos que somos isso. E não tem que ser verdade!

A meditação tem um papel fundamental neste distanciamento e perceção, entre o que eu sou e o que é (ou está a ser) a minha mente. 

O DIA-A-DIA DA MENTE

A grande preocupação e função da mente é garantir o nosso bem-estar, a nossa felicidade, a nossa saúde. 

Por ser responsável por um corpo com muitas necessidades, a mente tem que obrigatoriamente ser muito ativa. A mente está constantemente à procura de alimento, seja ele mental, ou seja ele físico. Como se estivesse sempre com fome. Fome de comida, propriamente dita, claro que sim, mas também fome de relacionamentos e de emoções. Fome por coisas como o amor, o reconhecimento, o dinheiro, a auto-estima…

Para além desta fome, desta necessidade interior de procura a todo o instante, a mente também é muito estimulada pelo exterior. A mente tem que lidar com uma grande quantidade de coisas que inevitavelmente chegam até ela. Tem de lidar com tudo o que vê, com tudo o que cheira, com tudo o que sente, com tudo o que saboreia, com tudo aquilo que a rodeia.

MENTE SELETIVA, REALIDADE SELETIVA

Com todos os estímulos de que é alvo, a mente precisa obrigatoriamente de selecionar. Ela própria escolhe em que coisas deve focar a sua atenção e em que coisas deve retirar a atenção, aquilo que deve ignorar. E essas escolhas são feitas de acordo com o tipo de fome que a mente, naquele momento, tem. São depois essas escolhas que irão construir e criar o mundo que nós vemos, o mundo que nós experienciamos. Sendo as escolhas da mente muito individuais, muito próprias e específicas de cada pessoa, as experiências da vida automaticamente também o são, e a própria forma como se vê o mundo também o é. Se duas pessoas forem dar um passeio, ambas experimentam coisas diferentes desse mesmo passeio. Seres diferentes procuram coisas diferentes, experienciam coisas diferentes, vêm o mundo de maneiras diferentes e, portanto, vivem realidades diferentes (se a nossa mente mudar a escolha, muda a realidade. Mudar o foco de atenção da mente automaticamente muda a realidade).

A IGNORÂNCIA DA MENTE E A MEDITAÇÃO

É interminável a procura por alimento. A mente está constantemente à procura de alimento, principalmente alimento mental. Assim que é satisfeita uma determinada fome, a mente já está à procura de onde se vai alimentar a seguir. Percebe-se bem que a nossa mente tem esta preocupação de garantir que não nos falta nada, que o nosso bem-estar fica assegurado, a nossa satisfação. No entanto, esta procura incessante pelo bem-estar, ao estar constantemente presente, faz com que a mente por vezes, por ignorância, entenda mal o que causa stress e sofrimento desnecessários e o que não. Como muitas vezes estamos em modo “piloto automático” e, associado a isso, quando não paramos para analisar o que se passa na mente, a tal ignorância da mente faz com que ela crie ainda mais sofrimento e ainda mais stress, enquanto procura o alimento, e projeta já onde procurar a seguir, e assim sucessivamente.

Aqui entra o papel da meditação. É possível resolver o problema desta ignorância. A meditação permite analisar, permite perceber que questões da mente estão por preencher e porquê.

Na Medicina Tradicional Tibetana, a ignorância é muito referida. É muito interessante a forma de ver a vida segundo esta medicina. É bastante diferente da nossa medicina ocidental. Não desvalorizando nenhuma delas, pelo contrário, cada uma tem o seu lugar, podendo até muito bem complementar-se uma à outra, a Medicina Tradicional Tibetana é uma medicina muito abrangente, é mais holística, onde o ser humano é entendido e examinado como um todo. A Medicina Tradicional Tibetana, assim como outras medicinas milenares (a medicina tradicional chinesa, com a qual tenho tido agora mais contacto, e também a ayurvédica), todas partilham da mesma visão de vida neste aspecto: entendem a vida segundo uma lógica de causa e efeito, onde para toda uma ação há uma reação. E na saúde não é diferente. Mas retomando o tema da ignorância, pela Medicina Tradicional Tibetana, a causa de todas as doenças, em última instância, é a ignorância.

Um aspeto bastante interessante desta ignorância é que ela não permite que a mente veja, ou tenha perceção, do seu próprio funcionamento interno no momento presente. A mente pode estar lá à frente, no futuro, ou lá atrás no passado, a reviver determinado acontecimento, e mesmo assim o presente está a acontecer, esteja a mente presente ou não. Estão a ser tomadas decisões, estão a ser tomadas escolhas mas em modo “piloto automático”. Não estão a ser escolhas conscientes.

Então o momento presente é super importante!

É neste momento que são feitas as escolhas. Então quanto mais consciente, mais presente eu estiver e mais claramente eu conseguir ver o que está a acontecer no presente, maior a probabilidade de Eu fazer escolhas: aquelas que eu quero que aconteçam e que me levam à felicidade. E a meditação traz isto.

A meditação concentra toda a atenção no momento presente. E é no momento presente que eu consigo e posso observar o funcionamento da mente e direcioná-la para onde eu quero, para os objetivos que eu pretendo alcançar, para a vida que eu quero. Não tenho que ser guiada por uma mente que faz escolhas das quais não estou a ter consciência! Posso, em vez disso, ser eu a guiar a minha mente e, por consequência, a minha vida, para uma direção que de facto é a que pretendo e da qual sou a verdadeira autora (não a minha mente). O presente é o único momento no tempo em que eu posso agir e o único momento no tempo em que posso fazer mudanças.